Corações em perigo

21/08/2006

Agência FAPESP - A revista médica The Lancet, em editorial na edição de 19 de agosto, alerta para um grave problema que, de acordo com a publicação, estaria sendo ignorado pela comunidade científica mundial: a doença de Chagas.

Prevalente na América Latina, a doença causada pela infecção com o parasita Trypanosoma cruzi é responsável por mais de 50 mil mortes todos os anos na região. Estima-se que 18 milhões de pessoas estejam cronicamente infectadas pelo parasita e que outros 100 milhões correm risco de infecção em 21 países da América Latina.

A doença é transmitida pelo inseto conhecido como barbeiro, que geralmente vive em buracos ou frestas em habitações precárias. A causa mais comum de morte em infectados é por danos irreversíveis no coração. A doença foi descoberta em 1909 pelo médico brasileiro Carlos Chagas, que deu ao parasita causador o nome Trypanosoma cruzi, em homenagem ao epidemiologista Oswaldo Cruz.

O editorial da The Lancet destaca diversos problemas relacionados à doença. A prevenção por meio do controle do inseto transmissor, por exemplo, é difícil por conta da abrangência e dos custos elevados. A doença também não tem sintomas iniciais e se torna crônica em muitos infectados, mas não há maneira de saber quando isso ocorrerá.

A baixa qualidade dos testes disponíveis atualmente implica que a doença não seja diagnosticada com exatidão. Também não há vacina ou tratamento efetivo, nem teste que demonstre a cura. Para piorar, por ser prevalente em países mais pobres, as grandes indústrias farmacêuticas não se interessam em desenvolver possíveis tratamentos.

“Essa situação inaceitável seria a mesma se a doença de Chagas fosse endêmica em um continente mais rico?”, questionam os editores da revista médica.

O alerta tem como objetivo direto servir para estimular discussões no Congresso Mundial de Cardiologia, que será realizado de 2 a 6 de setembro, em Barcelona, na Espanha.

Outra revista, a New England Journal of Medicine, engrossa o coro e publica em sua edição de 24 de agosto um artigo sobre o grave problema que a doença de Chagas representa para a América Latina. Um estudo feito com 424 portadores verificou uma taxa de mortalidade de 84% em dez anos para indivíduos com estados considerados mais graves.

O artigo destaca também que o problema não está mais restrito aos países latino-americanos. Com a migração para outras regiões, mais de 100 mil indivíduos infectados estariam vivendo apenas nos Estados Unidos. O texto, assinado por James Maguire, da Universidade de Maryland, destaca que a melhor alternativa para enfrentar a doença é a prevenção. Maguire elogia um programa conduzido no Brasil e em outros seis países para controle do vetor e sugere que a iniciativa seja implantada em outros locais.

No Brasil, estima-se que cerca de 6 milhões de pessoas vivam com a doença, que causa mais de 30 mil mortes por ano. A prevenção e o controle dos insetos transmissores são as melhores formas de evitar o problema. Em fevereiro de 2005, um surto da doença foi registrado em Santa Catarina, atingindo mais de 20 pessoas.

O texto Chagas’ disease – an epidemic that can no longer be ignored pode ser lido por assinantes da The Lancet em www.thelancet.com.

minha fonte: www.agencia.fapesp.br/boletim_dentro.php?id=5970

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